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Análises independentes sobre política

Por Leandro Lima

A Dinâmica da Rejeição: A Balança que Define o Próximo Presidente

No cenário político brasileiro, a pergunta "Em quem você votaria?" costuma ocupar todas as manchetes. No entanto, para os estrategistas de campanha, o dado mais relevante para o cálculo de risco é outro: "Em quem você não votaria de jeito nenhum?".

A taxa de rejeição não é apenas um número negativo; ela funciona como um teto eleitoral difícil de reverter. Em um sistema de dois turnos, o candidato que carrega o maior índice de recusa geralmente encontra uma barreira matemática para crescer. Historicamente, no Brasil, o vencedor não é necessariamente o mais amado, mas sim o menos rejeitado.

 

O Histórico das Urnas: 2018 e 2022

Para entender a disputa de 2026, precisamos olhar pelo retrovisor. As eleições anteriores mostram um padrão claro: a rejeição dita o ritmo da vitória.

O Cenário de 2018

Em fevereiro de 2018, o cenário era de incerteza jurídica. Embora Lula liderasse as intenções de voto, ele acabou não concorrendo devido ao impedimento pela Lei da Ficha Limpa, sendo substituído em agosto daquele ano por Fernando Haddad. De acordo com os dados do Ibope divulgados em 15 de outubro de 2018, a cristalização da rejeição foi o ponto central para o desfecho do pleito.

Naquele momento, os índices de "não votaria de jeito nenhum" apresentavam uma distância significativa entre os dois candidatos finalistas:

  • Fernando Haddad: 47% de rejeição.
  • Jair Bolsonaro: 35% de rejeição.

Bolsonaro sagrou-se vencedor ao capitalizar o sentimento antipetista que atingiu seu ápice em outubro. O aumento da rejeição de Haddad foi determinante para a vitória do seu adversário.

O Cenário de 2022

Quatro anos depois, o cenário se inverteu drasticamente. Em fevereiro de 2022, a pesquisa do Ipespe indicava:

  • Jair Bolsonaro: Tinha a maior rejeição, com 62%.
  • Lula: Apresentava uma rejeição de 43%.

O resultado das urnas confirmou a lógica: Bolsonaro ostentava a maior rejeição da história para um presidente em busca de reeleição. Lula, com a menor taxa de rejeição entre os dois, venceu o pleito, provando que é bastante improvável vencer um segundo turno quando mais de 60% de rejeição.

 

Fevereiro de 2026: O Empate no Desgaste

Chegamos a 11 de fevereiro de 2026. A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest revela um país rachado e, o que é mais preocupante para os candidatos, profundamente polarizado.

A disputa entre o lulismo e o bolsonarismo (representado por Flávio Bolsonaro) apresenta índices que são quase imagens espelhadas. De acordo com os dados mais recentes, Flávio Bolsonaro (PL) lidera numericamente a rejeição com 55%, seguido de perto por Lula (PT), que aparece com 54%.

Este empate técnico sugere que a eleição de 2026 será decidida nos detalhes e na capacidade de cada um de "limpar sua imagem" perante o eleitorado moderado, que hoje rejeita ambos com intensidades similares.

 

Por que a Rejeição é o Fator Decisivo?

Diferente da intenção de voto, que pode ser volátil, a rejeição é estrutural. Ela é baseada em valores, convicções e experiências passadas que o eleitor dificilmente ignora.

O Teto Eleitoral

Se um candidato tem 55% de rejeição, seu potencial máximo de votos é de 45%. Em uma eleição em se precisa de 50% mais um voto para vencer no segundo turno, ter mais da metade do eleitorado dizendo "não" é um obstáculo severo.

O Fenômeno do Segundo Turno

No Brasil, o sistema de dois turnos transforma a eleição em uma "escolha por exclusão":

  • No primeiro turno, o eleitor vota em quem mais se identifica.
  • No segundo turno, ele frequentemente vota em quem menos rejeita.
  • A rejeição alta alimenta o voto nulo e branco, que cresce quando os dois finalistas são pesadamente rejeitados pela maioria.

 

O Desafio de 2026: Quem Consegue Cair Primeiro?

Com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados na casa dos 55%, a estratégia das campanhas mudou. O foco agora não é apenas apresentar propostas, mas sim gerenciar o desgaste.

Fatos observados nas últimas eleições:

  • Quem alcança a liderança em termos de índices de rejeição, de forma cristalizada, sempre teve extrema dificuldade de reverter o quadro até outubro.
  • O eleitor de centro, que decide a eleição, foge de candidatos com rejeição acima da metade da população.
  • A estabilidade da rejeição de Lula contra a herança da rejeição de Jair Bolsonaro em Flávio define o humor das coligações partidárias.

 

Conclusão: O Menos Rejeitado é o Favorito

A história das eleições brasileiras desde a redemocratização é implacável: quem chega ao segundo turno com a menor rejeição tem as maiores chances de vitória. Em 2018 e 2022, essa regra foi o termômetro mais preciso do resultado final.

Para 2026, a moeda está no ar. Se Flávio Bolsonaro não conseguir reduzir seus 55% ou se Lula não estancar o crescimento de sua própria rejeição, o país verá a disputa mais acirrada da história, decidida por uma margem mínima de eleitores que escolherão quem lhes causa menos resistência.