Análises independentes sobre política
O pensamento de Nicolau Maquiavel, exposto em sua obra "O Príncipe", oferece uma lente fundamental para compreender a ciência política, especialmente no que tange à conquista e manutenção do poder pelos governantes. Maquiavel destaca a astúcia, a capacidade de adaptação e o pragmatismo como elementos essenciais para navegar as complexas disputas políticas. Aplicando essa visão ao Brasil pós-redemocratização, observa-se um cenário repleto de crises políticas, investigações judiciais e impeachments que resultaram na deposição ou desgaste de presidentes eleitos. Neste contexto, a presidência de Fernando Henrique Cardoso (FHC) entre 1995 e 2002 se destaca como uma exceção, pois ele conseguiu completar dois mandatos sem enfrentar impeachment ou uma crise política grave. Tal fato desperta a reflexão sobre os fatores que sustentaram essa estabilidade em meio à volatilidade que marcou os governos seguintes.
A estabilidade do governo de FHC repousou em um tripé estratégico. Primeiramente, o sucesso do Plano Real, do qual foi um fator crucial, estabilizou uma economia antes dominada pela hiperinflação, criando confiança e capital político considerável para seu governo. Em segundo lugar, sua habilidade no presidencialismo de coalizão foi muito importante. O sistema político brasileiro exige a construção de coalizões parlamentares devido à fragmentação partidária e à eleição majoritária do presidente em contraste com a proporcionalidade legislativa. FHC demonstrou grande habilidade política nesse sistema, formando uma base de apoio sólida com partidos como PFL, PMDB e PTB, que garantiu apoio legislativo forte, permitindo aprovações de reformas e neutralizando ameaças de impeachment. Por fim, o ambiente institucional durante sua gestão apresentava um Judiciário menos atuante, favorecendo a contenção das crises dentro do Legislativo e da imprensa, ao contrário do cenário posterior, em que a judicialização se tornou intensa e central.
Outro aspecto importante foi a natureza da rivalidade política da época, especialmente entre o PSDB de FHC e o PT liderado por Lula. A competição era ideológica e partidária , focando em disputas políticas substantivas, como as críticas ao Plano Real e às privatizações promovidas por FHC, consideradas pelo PT como uma entrega indevida de patrimônio público. Apesar dos embates, havia uma legitimidade mútua como forças políticas, sem lidar com o adversário como inimigo existencial , o que ajudava a preservar a estabilidade política. Esse quadro mudou radicalmente com a ascensão da polarização social e afetiva após 2010, intensificada pelas mídias digitais, que ampliaram a desinformação , além do protagonismo crescente do Judiciário. A presidência de FHC representa o último exemplo de um sistema político que ainda operava em um regime em que as partes adversárias não desejam a aniquilação entre si, antes da massiva judicialização e radicalização que viriam a marcar os governos posteriores e fragilizar o modelo clássico do presidencialismo de coalizão.