Análises independentes sobre política
Nos últimos anos, o cenário político brasileiro passou por fortes turbulências: o impeachment da presidente Dilma, a prisão do então ex-presidente (e hoje presidente) Lula e a prisão domiciliar e possível condenação do ex-presidente Bolsonaro. Todos esses acontecimentos, em síntese, foram atribuídos a um ou a alguns líderes.
O então deputado federal Eduardo Cunha aparece como o principal responsável pela queda de Dilma, ao passo que o então procurador da República Deltan Dallagnol é citado como um dos principais algozes de Lula quando este foi detido. Recentemente, a prisão domiciliar de Bolsonaro é fortemente ligada à atuação de Alexandre de Moraes, enquanto ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Poderia ter citado, no caso da prisão de Lula, o então juiz Sérgio Moro, mas explicarei mais adiante a escolha por Dallagnol.
Os acontecimentos citados remetem a rupturas, e Eduardo Cunha e Deltan Dallagnol já pagaram o preço. Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, teve seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar em 12 de setembro de 2016, após ser acusado de mentir à CPI da Petrobras sobre a posse de contas no exterior e de receber propina. Deltan Dallagnol, por sua vez, teve seu registro de candidatura cassado por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 16 de maio de 2023, resultando na perda de seu mandato de deputado federal.
Recentemente, o número de senadores a favor do impeachment do ministro Alexandre de Moraes subiu para 40. Para que o Senado decida instaurar o processo, é necessária uma maioria simples, que corresponde a 41 votos favoráveis. É bastante improvável que o ministro Alexandre de Moraes não sofra as consequências por impor a Bolsonaro prisão domiciliar e uma provável condenação.
Ao participar de uma das maiores rupturas da história mundial, a Revolução Francesa, o advogado e político francês Pierre Victurnien Vergniaud, sentenciou: “A revolução é como Saturno: devora os seus próprios filhos.” A frase faz menção à mitologia romana, na qual Saturno, deus do tempo, temia ser destronado por seus filhos e, por isso, os devorava. Claro que não se pode prever exatamente o que acontecerá ao ministro Alexandre de Moraes, mas é certo que haverá uma mobilização das forças políticas contrárias a ele que podem levar ao inédito impeachment de um ministro da Suprema Corte.
Sobre Moro, aprofundei na questão de Dallagnol porque ele ainda se mantém como senador, fazendo concessões como a não declaração pública se votou a favor ou não para que Flávio Dino, que é fortemente ligado a Lula, se tornasse ministro do Supremo. No entanto, o ex-juiz não goza mais do prestígio nacional que tinha antes junto à metade do país.